quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Surto Real

_ Vejo nele seu sorriso e posso ouvir teu coração.

A frase de sua dinda ficava alimentando o amor que sentia e a saudade que a apertava. Seu consolo único era ver as fotos do mar pela tela do computador. Há muito tempo queria sentir o cheiro de sua madrinha e de sua irmã. Há exatos sete anos. Havia tanto tempo que queria vê-las, exatos sete anos desde que saíra de casa pra sonhar e agora era tempo de voltar.

Era tempo de voltar e colocar seus pés em solo baiano. Morando no Paraná por sete anos seus hábitos tinham até mudado. Falava cantado como os paranaenses, aprendeu a tomar chimarrão, conhecia toda a cultura, sabia o que era um “redondo” e arrasta o r pra falar “calor, porta, corredor”. Esqueceu-se como era sua Salvador, esqueceu-se como era sambar e não sabia mais como era o cheiro do mar.

Aliás estava aí uma pergunta que não queria calar no coração daquela pobre estudante universitária: _ Que cheiro tinha mesmo o mar? Como era a escadaria do Senhor do Bonfim? Será que o acarajé andava muito quente? – Pôs-se a rir alto e sozinha pensando no dia em que sua irmã chegou esfomeada à baiana e disse:

_ Me dê um acarajé moça.

_ Completo?

_ Com tudo que tiver direito!

A fome era tanta que ela esqueceu que “tudo o que tiver direito” incluia a pimenta. Mordeu com gosto. Fez aquela cara de “ai tá quente!”, olhou pra sua irmã e só conseguiu sussurrar desesperada:

_ Água pelo amor de Deus!!!!

Comeu o acarajé com muita água, depois disso, por mais faminta que estivesse nunca mais disse “com tudo o que tiver direito”. Essa irmã era magrela, o cabelo andava curto, os olhos eram cor de mel, quer dizer, se o dia estivesse limpo até que dava pra enganar um verde, dava pra dizer que o dia mentia a cor de seus olhos. Era linda, o nariz arrebitado, como narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, tocava violão na missa, a voz era aguda e às vezes soava meio desafinada. Mas tinha um coração de ouro. Amável, apaixonante, sua irmã era uma menina linda.

Tinha mais dois irmãos além de Maria. Anita, um ano mais nova que Maria e Pedro com cinco anos. Anita tinha olhos verdes, cabelo bem cacheado, gingava como uma baiana de verdade e dançava pra valer. A dança e a poesia do povo, a música e a artes dramáticas eram seu forte. Lembrou-se de quando Anita, por preguiça e drama fingiu-se de morta pra não lavar as vasilhas do almoço. A cena foi hilária, chegou no quarto de Anita e a viu estirada sobre a cama com os pulsos em vermelho vivo. Desesperou-se:

_ Ani, Ani, por favor...

Aí sentiu um cheiro forte de acetona, olhou pro “corte” e percebeu que era teatro da irmã mais nova, decidiu colocar lenha na fogueira, foi até à geladeira, pegou duas pedras de gelo e voltou para o quarto. Lá chegando deixou cair as pedras nas costas de Anita. A menina pulou desesperada e ela riu com gosto.

_ Paula! Você não vale nada! Gelo é muita trairagem.

_ Ani precisava ver sua cara!!!

_ Minha cara? Você vai ver, vem já aqui pra ver com quantas bandejas de gelo te faço um boneco de neve.

As férias eram um sonho. Maria morava com a madrinha de Paula, Ir. Gisele, na cidade de Salvador. Sim, Maria era vocacionada de uma congregação religiosa, seu sonho era ser irmã. Entraria em Recife no ano seguinte para iniciar como Aspirante. Paula terminaria a faculdade e enveredava pelo mesmo caminho. Dos quatro irmãos, aparentemente Anita não desejava a vida religiosa e Pedro tinha vocação pra sacerdote, mas ninguém sabia. Afinal, aos cinco anos a vocação é algo singelo demais.

Diferentemente de Maria, Paula entraria no Rio Grande do Sul. Sim, iria ficar longe, prometeu pra Maria que se reencontrariam em São Paulo. E voltariam a morar juntas, fariam os votos juntas. Sonhavam juntas. Paula ensinaria Maria a tomar Chimarrão e a torcer pro Internacional. E Maria ensinaria Paula a sambar e mostraria o mar.

Planos...

Paula estava no último ano, finalmente! Nem acreditava que tudo estava chegando ao final. Então abriu a caixinha do correio e lá estava, uma carta de Anita.

Olá minha irmã!

Tenho sentido muitas saudades, não aguentava mais ficar longe de você. Como você está? O pequeno Peter cresce, mas vive chamando por você e por Maria. Mamãe está mais consolada, entendeu que vocês estão felizes e que é como se estivessem se casando. Mas sente saudades, sempre fala de vocês e chora pelos cantos. Papai me pede sempre pra jogar baralho com ele, como você fazia. Ele é mais reservado, você sabe, mas também sente tanto sua ausência... Quando será que vou te ver de novo? Você virá pra casa em dezembro não é mesmo? E vai ver Maria em Salvador? Você também sente falta da gente? Ah, consegui uma bolsa pra entrar no Ballet São Paulo, é o passo pra ir pro Ballet russo, vou sonhar com isso enquanto não estiver pagando impostos pelos tamanhos dos sonhos. Escrevi umas histórias e ganhei uns prêmios, mas é coisa boba da escola.

Sobre o que você tem escrito na faculdade? Continua sonhando com aquilo de missões? Desculpa mana, mas você é meio doida mesmo né, acho que tá no caminho certo. Na nossa família não tem ninguém no “padrão”.. gosto disso. Quem sabe um dia você e Maria não se encontram de novo e moram perto uma da outra. Vocês poderiam tentar tirar férias ao mesmo tempo e a gente faria a maior festança. Como estão as outras Irmãs? To com saudade da sua dinda, ela é muito legal. E aquela uma que falava engraçado? Tem visto? Continua jogando ludo com a Irmã comunista? Porquê mesmo que vocês chamavam ela assim? Coitadinha gente, ela era tão velhinha e vocês chingando a coitada de comunista...

O padre daqui falou que é pra vocês prepararem algo pra missa quando vierem em férias. Eu to indo numa igreja evangélica, to cantando por lá. É legal, o povo gosta de mim. Este negócio de colegial está me cansando, não consigo falar de filosofia e sociologia com as pessoas, ninguém gosta de discutir política, você me faz uma falta danada. Me ensinou a gostar destas coisas, agora estou perdida. Outro dia Peter acordou chamando seu nome, foi de cortar o coração, mas eu falo como se você não fosse voltar pra cá. Ai mana to com saudades. Olho pro céu e lembro tanto de você. Um abraço bem apertado em você. Te amo do fundo do coração, vem logo pra casa.

Beijos, Anita Guimarães do Rosário

São Paulo, 20 de Agosto de 2000.

Santa crise!! O coração apertou, queria correr para abraçá-la. Queria tê-la por perto. Ia desistir de tudo, de vocação, de chamado, de ser freira. Queria só um abraço de sua irmã mais nova. Então ligou pra sua vocacionista (a irmã que a acompanhava) e disse:

_ Irmã, irmã! Não quero mais saber desse negócio de ser freira.

_ Mas, o que aconteceu? Calma Paula, respira, tá tudo bem?

_ Minha mãe-irmã! To com saudades de casa, quero ver minha família.

_ Ô menina, vem aqui pra casa, vamos bater um papo, quero te ouvir, tudo bem?

_ To indo Irmã... quero chorar...

Paula entrou no ônibus que a levaria ao convento, quarenta minutos depois chegava no convento, ia ouvindo Coldplay e segurando o choro, o coração tava apertado e ela estava com a carta de sua irmãzinha no colo, já era a décima quinta vez em que lia “outro dia Peter acordou chamando seu nome...” Peter... Pedro, Anita chamava Pedro de Peter e o menino olhava com aquela carinha brilhante e ria.

_ Padinha... quelo Padinha...

Assim que ele chamava Paula. E aquela vozinha ecoava dentro da cabeça de Paula. Chegou no convento.

_ Irmã...

E pulou no pescoço da irmã, quebrando os protocolos, estava diante de sua mãe e irmã... Ir Clara a abraçou forte e disse: _ Calma Paulinha, calma, vamos pra dentro... espero que tenha vindo com pijama...

Sentaram na capela, Ir Clara fechou a porta e olhou com aqueles negros e profundos olhos para Paula.

_ Que aconteceu minha menina?

Paula entregou a carta. _ Estou com saudades Irmã... tantas saudades...

_ Eu te entendo. Eu sei como isso é duro. Logo você vai ver seus pais.

_ Não quero mais ir pro Rio Grande.

_ Mas, o que isso tem a ver com a saudade?

_ Ah, dói tanto, estou há tanto tempo longe...

_ Paula, vou te fazer uma pergunta bem séria.

_ Diga..

_ Tua vocação sumiu?

_ Hã?

_ É...aquele apelo no seu coração, de querer ser só de Jesus, de estar apaixonada... isso sumiu?

_ Acho que não... – Paula então levantou seus olhos pro Sacrário e eles se encheram de lágrimas, as tais saltaram de seus olhos. Como ela chorava.

_ Vou te deixar só, pensa um pouco, quando você conseguir escutar seu coração eu volto tá. Vou entender você qualquer que seja sua decisão, quero te ver feliz.

_ Irmã...

_ Sim Paulinha?

_ Só um coisa...

_ Sim?

_ Quero um abraço teu.. depois eu te chamo..

_ Ôh meu Deus – E ela abriu aquele sorriso honesto e acolhedor. Paula então se levantou e se lançou nos braços de sua irmã, tão perto dela, tão mãe. Tão famíla. Era isso!

_ Jesus continua me chamando, vou pra casa, mas vou voltar.

_ Ei menina, fica aí rezando. Tá muito precipitado isso...

_ Irmã, tá.. tudo bem...

E Paula rezou, rezou, rezou por quatro longos meses. Pegou seu certificado e voltou pra casa. Mas, ela sabia que havia um selo em seu coração. Ela tinha uma promessa e uma decisão. Ela tinha o selo da vocação.

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