segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Aquela do Compromisso

Hoje o papo é sobre compromisso, e não adianta fugir moço, de hoje você não me escapa! Ora vamos, eu não mordo… Seja um bom moço e se achegue aqui. Quero começar essa conversa com as palavras de um certo Severino, de João Cabral de Melo Neto:

Somos muitos severinos, iguais em tudo na vida. Na mesma cabeça grande que à custa que se equilibra, no mesmo ventre crescido, sobre as mesmas pernas finas e, iguais também, porque o sangue que usamos tem pouca tinta. E se somos severinos, iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina, que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta; de emboscada antes dos vinte; de fome um pouco, por dia; de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade e até em gente não nascida. Somos muitos severinos, iguais em tudo e na sina; há de abrandar estas pedras suando-se muito em cima; (…) há de querer arrancar algum roçado da cinza.

(João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina)

OgAAAEa2P45gqzqR2qT-4471Q4gTTQ555rlTz88YfjVPQtHNOE_34RNiZF9Lm1dAxRq5TDjTnbUbNa9KoSZbSwGDqB4Am1T1UKRkY5RTBqYu_OJLlW14i0IBA7Ts

Nossas leis me dizem que é fundamento da República Federativa do Brasil a chamada dignidade da pessoa humana, mas ora, que seria essa dignidade? Que seria esse fundamento valorativo a que se manifesta nossa Carta Magna chamando à si a possibilidade de que seus cidadãos tem fulcrado em seu Estado Maior uma esperança?

Seria possível tamanha possibilidade de vivência? Não é muito prepotente tal anseio? Conseguiria um Estado Soberano conceder algo ao seu cidadão tão oprimido e tão doente?

Se você já viu como é a fila do Sistema Único de Saúde (S.U.S.) sabe bem o que eu digo. Ontem assisti a uma palestra em que um médico tratava sobre o ensino da ética na Medicina. E apresentando alguns gráficos a respeito do tempo em que uma pessoa leva para ser atendido, ele constatou a realidade deprimente e caótica de nosso sistema de saúde.

Disse que uma pessoa leva em média de seis a oito meses para conseguir consultas em determinadas especialidades médicas, ironizou o fato de que muitos se alegram ao conseguir a bendita “senha” de atendimento. Mas, claro, “somos muitos severinos, iguais em tudo, e na sina…”, e quando o paciente chega no tão esperado dia de sua consulta, passa em média 1 hora ou pouco mais sentado num banco à espera de ser chamado, e quando chega sua vez, o médico sequer olha pra seu paciente, sequer o chama pelo nome e o atendimento leva cerca de dez minutos. Ao médico, “somos muitos severinos”, ao paciente “morremos de morte igual, mesma morte severina”.

morte severina

Não me contentando em falar a respeito da saúde, quero questionar: Quanto brasileiros e brasileiras não abdicam seu almoço, seu jantar pra alimentar os filhos? Porque a estes “pra que outros possam viver, vale a pena morrer”. Será que a dignidade da pessoa humana é um fundamento do nosso Estado?

Será mesmo que todos tem liberdade de crença? Apesar do que diz nossa Constituição Federal, por que morreu Dorothy Stang? As notícias a respeito dizem que suas últimas palavras teriam sido no sentido de que sua única arma era o Evangelho.

Será que temos proteção ao menor? Em nossas cidades litorâneas o que mais se vê são crianças de 4 a 12 anos, isso mesmo, CRIANÇAS, que chegam em turistas, caminhoneiros, viajantes, e até moradores locais se submetendo à qualquer favor sexual por cinco reais. E então, ao serem questionadas sobre o porque fazem isso, muitas das respostas são: “Tenho fome; Meus irmãozinhos não tem o que comer; Moço, há dias não sei o que é arroz…” Seria isso dignidade? Somos um povo digno?

42-17990061

A Dignidade da pessoa humana, enquanto norma, mesmo que valorativa, implica numa ação do Estado para que sua eficácia não seja posta à prova. Massificou-se a chamada dignidade, e tudo se tornou violação da dignidade. Ora, não estou a dizer que quero uma conta recheada, nem carros, casas, nem propriedades, estou falando de saúde, de alimentação, de proteção à infância.

Será que você que é pai, mãe, ou que tem irmãos menores, sobrinhos, como você se sentiria se soubesse que qualquer um dos seus está oferecendo seu corpo, que é seu bem mais precioso, em troca de um bocado de pão?

Como ficaria se soubesse que sua tia, sua mãe, avó, está doente, na fila de um hospital, à espera de um atendimento em cardiologia, sem qualquer perspectiva de consulta?

Como se sentiria se soubesse que seu irmão ou sua irmã, hoje com filhos, não tem se alimentado para que seus filhos possam ter como sobreviver?

O que você faria?

Como agiria?

O que falaria?

A quem recorreria?

Como?

42-16786606

Dignidade da pessoa humana e efetividade das normas… um desafio não só aos juristas, mas também a todo que se diz brasileiro, cidadão, especialmente se for cristão.

Pense nisso!!!

Ser cristão é também se comprometer com o próximo.

Não há cruz sem o outro. Não há cristianismo sem comunidade. “Deus, mesmo sendo perfeito a ponto de poder viver sozinho, escolheu ser comunidade, em três Pessoas que são uma, numa perfeita comunhão”.

Saudações de São Paulo-SP, em 05/10/2011;

Panda.