segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Paulo, Sméagol e Eu.

Liturgia diária: 1ª Leitura 1 Co 2,1-5

Paulo não se mostra cheio de sabedoria como “Portador do Mistério (Segredo) de Deus”, ao contrário, assume suas misérias.

“Fraco e tremendo de medo, apresentei-me a vós”

Naquela manhã eu sabia que deveria ir para Corinto, mas, sentia tanto medo. O amor de Deus me impelia para falar a respeito de Jesus e de toda Salvação e Redenção, eu precisava falar deste amor e falar toda a verdade. Já se sentiu assim?

Algo muito sério para falar, mas com o coração disparado e com medo de abrir a boca porque sabe que o tomarão por louco? Desvairado? Ensandecido? Toda sua reputação de mestre da Lei, fariseu, israelita de bem por água abaixo. Eu tremia… me sentia tão pequeno diante do tamanho dessa missão…

Meu coração se dividia entre assumir a postura de mestre da lei, instruído e versado a respeito de toda a tradição, a postura de um filho digno da Casa de Israel, com mais cérebro que coração… e o outro lado era falar sobre a loucura da cruz. Vejam só minha situação…

Como é que eu iria falar que o Messias, o Libertador, já tinha vindo e tinha morrido numa cruz? Não aceitariam… MAS EU TINHA QUE FALAR ASSIM MESMO! Mesmo que me chamassem de maluco, de louco, de endemoninhado, de qualquer coisa, eu ia falar!

Sabe que relembrar deste dia para contar a vocês, depois de praticamente quase 1970 anos que o fato aconteceu, sinto que parecia um personagem de um destes livros, um muito famoso por sinal, sabe que eu como escritor gosto também de ler, então, me senti um tanto como o Sméagol, de “Senhor dos Anéis”. Claro, os mais tradicionais podem me tomar por um santo de direita, que não gosta de nada que é legal, mas eu gosto, me sinto tão jovem com todos estes pouco mais de 2000 anos.

Calma, não precisa me olhar com essa cara de susto, afinal, um apóstolo também é gente, e como gente tem sentimentos e se sente confuso e perdido, eu me sentia assim.

Sabe como é, eu estava entre falar como um mestre e me agarrar ao “meu precioso anel”, que neste caso era meu status, meu conhecimento e toda aquela coisa que as pessoas valorizam até minha garganta soltar um grunhido estranho e revelar minha face “Gollum”

ou

Eu poderia me render ao Mestre, obedecer sua voz, lhe entregar “meu precioso” e apontar o caminho que levaria a libertação, o amor, essas coisas que realmente valem a trajetória perigosa da vida. Eu poderia ser Sméagol então.

Mas, como no meu tempo não tinha Sméagol, nem Senhor de Anel nenhum, eu optei por ser Paulo, e, com os batimentos cardíacos acelerados me curvei em minha cama e murmurei “Eis-me aqui Senhor…”. Me levantei, minhas mãos transpiravam um pouco, me sentia frágil, porém uma coragem tomou conta do meu ser, eu caminhava com toda força que com toda certeza era o Mestre quem dava, eu não tinha o peso do “meu precioso” me sufocando. Olhei para a multidão em Corinto e falei:

_ Varões, há um Messias, há alguém sobre quem Isaías falou outrora o seguinte: “O Espírito do Senhor está sobre mim…”

Por: Paulo, Apóstolo pela graça aos gentios.

Claro, esta história não aconteceu, mas poderia, Paulo realmente se sentiu frágil, assim como eu… você… as coisas são assim… Mestre, pega aqui meu precioso também… Obrigada!!