domingo, 9 de setembro de 2012

Quartinhos

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Minhas mãozinhas no vitral limpavam com energia aquele embaçado, estava sequiosa de ter um vislumbre daquele quarto.

Parecia escuro e sombrio.

Sempre achei que ali morasse um monstro amaldiçoado, um ser eterno que ficava fechado, enclausurado, talvez amarrado, e bem, sinceramente, pra mim, toda vez que ele tentou escapar foi ferrenhamente espancado e devolvido para o quartinho escuro.

Maldições eternas.

Haveria possibilidade de jogar luz naquele quarto? Haveria esperança para o monstro? Mas, será que morava mesmo um monstro ali dentro? Continuei esfregando os vitrais. E notei algo próximo à janela, atrás de uma plantação extensa de hera, encobrindo algo… era a porta!

A misteriosa porta do quartinho escuro. Minha coragem era tanta e eu desejava tanto ver o que tinha ali! Se bem que, bem no fundo do meu coração eu sempre soube o que morava no quartinho…

Aos poucos fui cortando a hera e ouvi um grande barulho vindo detrás da porta, um grunhido estranho, sombrio, dei um salto e estaquei tal como estava. Agucei meus ouvidos e espremi os olhos como se pudesse vislumbrar ou perceber algo, mas, como se pressentisse ser notado, o barulho também parou.

Noite Escura dos Sentidos.

Voltei então com toda minha coragem e concluí meu serviço diante da portinha, virei a chave e destranquei o quarto. Isso tem pouco mais de um ano, aconteceu na semana santa do ano passado, eu tinha certeza que o monstro estava desperto.

Virei o trinco e abri a porta, o cheiro que a pequena sala (eu pensei que fosse uma pequena sala) quase me derrubou, havia muito que estava fechada, pensei que fosse mofo, mas não, era um cheiro estranho e um ser desgrenhado saiu de lá. Estava tão deslumbrado com a liberdade que saiu cambaleante, aparentemente tão cego que desejava provar tudo o que alguém que nunca viu o mundo desejou.

Usou todos os seus sentidos exaustivamente na compreensão do mundo, mas não conseguia absorver tudo, se sentia estranho e cego, mas, demonstrava o contrário, demonstrava enxergar.

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Com a ajuda de uma grande amiga, chamei aquele ser desgrenhado e que eu achava ser amaldiçoado para uma conversa honesta. Nós três então nos sentamos próximos do mar, ouvindo as ondas quebrarem e tendo a visão de um notebook e alguns livros, iniciamos uma longa conversa sobre a vida com aquele pequeno ser…

Enquanto conversávamos, nós três, notei que sem ajuda alguma algo caía dos olhos do pequeno ser desgrenhado, era como uma libertação. Algo de familiar percebi no olhar do meu amigo, já estava se tornando tão íntimo de mim era como um amigo. Conforme partilhávamos a vida juntos notei então que o pequeno ser do quarto escuro era eu. Abracei com amor aquela curiosa parte de mim e a amei! Serenamente a amei! A compreendi e a amei.

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Abrindo as portas e quebrando as “maldições”.

Acendemos a luz e percebi que não estava bagunçado lá dentro, ao contrário, estava extremamente organizado, a única coisa estranha era aquele pedacinho de mim que se sentia esquizoide e se manietava por medo de si mesmo. Se escondia. Se aprisionava.

Abracei então o morador do quartinho e juntas abrimos a janela deixando o ar puro entrar. O quartinho não era quartinho, era enorme, era tão grande que até agora estamos caminhando, todos nós… (meus três amigos: Pai, Filho e Espírito Santo), minha grande amiga (cujo nome ficará nos memorais do Céu), alguns outros grandes amigos-irmãos e eu, todos caminhamos pelo enorme quarto que é meu coração.

Livremente… e em amor.

Na serenidade te convido a fazer o mesmo, e não tenha medo, no fundo não é um monstro e nem é feio, nem morde!

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Naquele que ama todos os moradores de todos os quartinhos,

Panda.