sexta-feira, 19 de julho de 2013

Corações

Caminhava espanando e tirando toda a fuligem do lugar. Já não sem tempo que limpava aquele cômodo. Tinha fuligem das fotos queimadas. Naquele espaço tão sagrado, ousei atravessar apenas uma vez e pendurar uma foto. Mas, depois das dores, não queria atravessar os umbrais que me levassem para um novo amor. -Meses depois de choros, lágrimas e a consciência de que as pessoas acontecem quando tem que acontecer por uma missão, e, que a “pessoa que me esperava", continuava me esperando numa esquina qualquer, com olhares, abraços, cumplicidade, companheirismo, realidade, amor, diálogo e volúpias. Me esperava com luto e tristeza, pois a vida também se constitui disso. Me esperava com louças pra partilhar, pó pra limpar e outras fuligens. Caminhei. Limpei aquele quarto, tirei todos os resquícios que tinham ficado de amargura e me joguei à vida. Caminhava com cautela. Olhares apurados. Procurando. Procurando. E, num dia qualquer, no meio de uma discussão gramatical, à margem de todas as letras, sem verso e prosa. Letras saltavam diante de meus olhos, quando notei aqueles olhos que pareciam azuis, pareciam verdes. Miopia mesmo.
Sem esperança nenhuma me aproximei. Não havia poesia mais. Pois, todas as poesias vinham de dentro daquele quarto “das fuligens" que eu limpara há não muito tempo.
Quando começamos a conversar a identificação e o alarme apitaram dentro de mim. Entretanto, não quis dar margem, falei de amigos, de outros romances, de livros, filmes, músicas, video-game… não queria dar margem. Até que, sem perceber, falei algo sobre olhos verdes, falei sobre cantar novamente, falei sobre identificação, falamos… falamos de vida, de esperança, de admitir. Não falamos as três palavras.
Receio.
Fomos pelas margens sussurrando e cuidando. De si. Do outro. Por um tempo. Até o primeiro abraço cuidadoso. 
Limpeza e nova decoração.
Ao tempo preciso meus ajudantes interiores foram redecorando o quarto da fuligem. Varreram novamente, colocaram novas flores, novos vasos, tapetes, sofás, puf, cama, travesseiro, poesia, novo romance, novos encontros.
A nova visita ao quarto das fuligens.
Após ter feito uma limpeza mesquinha e preguiçosa da primeira vez, por descontentamente, voltei ao quarto. Era tempo de redecorá-lo. Mas o encontrei maravilhosamente limpo. Agradeci aos Anjos que haviam trabalhado nele. Fiz uma prece ao motivo desta limpeza. Caminhei admirando a beleza do lugar. Qual não foi minha surpresa quando encontrei algo antigo também nesta sala. Um baú. Com lacre dourado, pedras preciosíssimas incrustadas, prata e ouro. Um TESOURO!!! A chave muito antiga estava ao seu lado. Com cuidado o abri.
Um coração.
Dei poesia, música, cuidado, verdades, muitas verdades, confissões, até dos desejos que tinha vergonha, apresentei pessoas, toquei violinos outros, esperei com medo de tocá-lo com minhas mãos, mas notei que ele também esperava por isso e na medida do amor que lhe devoto, o abracei com toda a minha alma, até que ele me sentiu profundamente e tocou no meu próprio coração trazendo fôlego de vida!
Meu maior tesouro!
_…Sonhei com vc.. porque…er…well…
_ hahahaha sonhou é? Você tem uma mente agitada.
_ Coisas dos hormonios… deve ser porque você é a pessoa mais importante do meu mundo…
E ela me sorriu com os lábios e a alma.

(Postado originalmente no meu Tumbrl)